quarta-feira, 22 de março de 2017

Esquerda, Volver: 15) O caso Karnal sob outro prisma

Assisti há alguns anos à reprise de um programa muito popular na década de 1970 chamado Quem Tem Medo da Verdade?. Tratava-se de uma espécie de encenação de julgamentos de personalidades públicas, que iam ao programa se defender de acusações que lhes eram imputadas. Na ocasião, o “julgado” foi ninguém menos que Roberto Carlos. Não vou me estender muito, mas, resumindo, os entrevistadores/promotores públicos o acusavam de ser mau exemplo pros jovens por causa de roupa, cabelo e atitude, entre outras coisas. E coube ao apresentador Silvio Santos defendê-lo. E o fez muito bem, diga-se de passagem. Disse Silvio que Roberto não passava de um tímido rapaz interiorano que nunca havia pensado em ser líder de ninguém e que estava preocupado apenas com sua carreira artística. E tanto era (e ainda é) verdade, que até hoje o Rei raramente se pronuncia acerca de assuntos polêmicos.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Esquerda, Volver: 14) Por que dizemos "não" à reforma previdenciária

Sim, eu sei, sou um utopista; não o fosse, não me dedicaria a versejar melodias mundo afora. Portanto, sonho ainda em ver chegar o dia em que, por exemplo, torcedores de Palmeiras e Corinthians, Flamengo e Fluminense, Atlético e Cruzeiro, Grêmio e Internacional etc. sentem-se um ao lado do outro na arquibancada sem que seja necessário separá-los como separamos suínos de bovinos. Quer dizer, em raras exceções isso já acontece, mas apenas em jogos da Seleção Brasileira. E por quê? Porque nesse caso há um interesse comum. Por essas e outras, estranhei a ausência dos coxinhas na manifestação contra a reforma da Previdência que houve no dia 15 último. Sim, petralhas e coxinhas não se sentam lado a lado na arquibancada quando a disputa é entre Esquerda e Direita, mas o caso era outro, tratava-se então de um "jogo da Seleção".

quarta-feira, 1 de março de 2017

Crônicas Desclassificadas: 184) A Maria que ninguém vê

Lá foi mais uma vez Maria pregar com suas duas companheiras como fazia em todas as manhãs de sábado já nem lembrava mais havia quanto tempo. Chovesse ou fizesse sol, lá estavam elas indo de casa em casa, batendo de porta em porta, versículos na ponta da língua afiada, embaixo do braço a velha Bíblia desbotada e já encardida de tantos sol e manuseio, distribuindo folhetos que continham a Palavra de Deus. Era, na maioria das vezes, um trabalho infrutífero, pois poucas pessoas abriam as portas – e os ouvidos – pra suas pregações. O mais comum era que cansassem as mãos de tanto bater palmas inutilmente, mas nem por isso iriam parar. Se o fizessem, o diabo teria levado sobre elas a melhor. Conseguindo salvar uma alma, já se davam por satisfeitas. No mais, o sacrifício da caminhada, cansando-lhes o corpo, fazia, em troca, bem ao espírito.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Esquerda, Volver: 13) O micro e o macro

Recentemente, Kana, minha parceira músico-matrimonial, fez um belíssimo show (sou suspeito, claro) no aconchegante Espaço Parlapatões, bem em frente à paulistana e boêmia Pça. Franklin Roosevelt. Pois bem, a entrada era gratuita, mas a casa permitia que a produção do evento passasse um chapéu pedindo ao público que contribuísse com o que quisesse. Kana levou ao parlapatônico palco oito músicos, sendo quatro saxofonistas, e gastou muito tempo pra fazer os arranjos pra essa banda. Até aí, tudo bem, toda profissão tem seus riscos (e enroscos); o detalhe que gerou este texto foi que bem em frente ao palco havia uma mesa de jovens que bebiam alegremente e, nos intervalos de seu êxtase, assistiam ao show. Já na segunda canção, eu, que estava logo atrás, ouvi de uma garota dessa mesa um "Não tem nenhuma música conhecida!". Duas canções depois, porém, todos eles estavam mexendo seus respectivos esqueletos ao som das tais canções desconhecidas.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

A Palavra É: 22) Cultura

Cultura é coisa séria, não é pilhéria nem deve ser vítima de censura. É pra invadir a rua, escapulir da raia, cair na gandaia, cortejar a lua. E a rima continua! Cultura é a dignidade de um povo, o futuro do novo, a memória do velho, o evangelho do ateu. Aí, almofadinha, cala a boca já morreu! A cultura é sua e é minha, não cabe só num ministério, pois transborda os hemisférios, não é pra ficar presa num curral. Sai pra lá com teu Interlagos! Nós queremos Carnaval, sarau, saravá, Saramago, aqui e acolá. E além. E também queremos mais grafite e menos gravata, menos bravata e mais quem grite, que cultura também é grito, é voz, somos todos nós cantando bonito no coro dos seres livres e pensantes, e amanhã mais que antes. Que a vida já anda um bocado difícil e pra segurar esse míssil toda festa é pouca, a burrice é mouca e não protesta. Por mais seresta e menos chefatura.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Ninguém me Conhece: 83) Teju Franco, um guerrilheiro trovador

Por Vanessa Curci
Estava havia anos querendo dedicar ao moço umas linhas por aqui, mas, sagitarianamente teimoso que sou, esperava que ele antes tomasse vergonha na cara e gravasse um CD pra que enfim "merecesse" ser por mim laureado. Contudo, ele, geminianamente teimoso, nem o gravou, e o próprio CD vem paulatinamente perdendo importância como medidor de carreiras. Há até bem pouco tempo, um cantor/compositor tinha como marco zero de sua trajetória o primeiro trabalho gravado; hoje em dia, um disco, aliás, um CD é mero acessório, pouco mais que um luxuoso cartão de visitas que quando muito facilita a marcação de um show em determinado estabelecimento. Perdeu lugar pra bons vídeos no youtube ou ações mais ousadas dentro (e fora) do universo virtual. Assim que, vencido na teimosia, resolvi deixar de esperar por caducos milagres e lhe dar flores em vida.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Eu Não, Vi, Mas Me Contaram...: 7) Rashomon reloaded ou Um conto capilar

Rashomon, hoje considerado um clássico do cinema mundial, é um filme japonês de 1950 escrito e dirigido por Akira Kurosawa que conta a história de um estupro e um assassinato vistos pela ótica de várias testemunhas. Pesquisando a respeito, descobri que existe na psicologia o chamado Efeito Rashomon, nome que é dado a determinada situação de difícil compreensão (ou esclarecimento) por ter conflitantes julgamentos daqueles que a presenciaram. Pois bem, dia desses um amigo escreveu no facebook um fato que ele protagonizou quando de uma visita ao salão de cabeleireiros; achei interessante a história, contada sob sua ótica, e lhe pedi permissão pra transformá-la livremente num conto que ora compartilho com vocês e pro qual me utilizei, meio que enviesadamente, desse tal Efeito Rashomon. Contudo, quero crer que todos me irão compreender. A ele, pois:

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A Palavra É: 21) Mato

Ah, que saudades do mato! Do matagal, do mato verde, do mato sem cachorro (ou com cachorro), de me esconder no mato, de correr no mato, de deitar no mato, de brincar no mato... Sim, jovem leitor, o mato, além de servir de parque, era também o próprio brinquedo! E a gente nem precisava pôr pra carregar depois; ele é que nos carregava pra lá e pra cá pela vastidão de sua verdura. O mato era foda! Nele, podíamos inventar mil diabruras, travessuras, aventuras... e outras safadezas e sacanagens que não rimam com "ura". Também não era necessário ligá-lo antes do uso, tampouco desligá-lo depois deste. O mato fica ficava ali, on, o tempo todo, e, quando íamos embora, permanecia, majestoso, numa espécie de modo de espera... ops, traduzo: stand-by. Era uma matavilha! E sem a limitação geográfica das atuais quatro paredes. Nem nos cansava a vista, apesar de ser vasto!

domingo, 22 de janeiro de 2017

Grafite na Agulha: 40) Meu despertar em sintonia com o de Guilherme Arantes

Cada geração tem suas emoções e a trilha sonora que embala suas paixões, mas temo que hoje, com a vulgarização da música e as facilidades de acesso digital a ela, a relação que os amantes tenham com a canção haja mudado – e pra pior. Em minha época, a canção estava intrinsecamente ligada ao ato de se apaixonar, e de forma quase religiosa, quiçá mais. É possível que eu esteja menosprezando essa relação nos dias de hoje, mas uma coisa é certa: só quem foi jovem no tempo dos vinis sabe do que estou falando. E, mais que isso, deve neste exato momento estar se lembrando com uma nostalgia danada de um punhado delas. As lembranças nos vêm às vezes com cores, cheiros, até mesmo com dores tão reais que chegam a ser quase físicas, e, obviamente, com sons de canções que parecem estar tocando no exato momento em que nos lembramos de certas passagens de nossa vida. Ah...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Trinca de Copas: 38) Dose dupla de Adolar Marin + Kana (e Marcio Policastro)


1) CRIAÇÃO

Já contei esta história antes (aqui), mas agora, animado pelo vídeo que a turma do Peixe Barrigudo fez dela, e também porque ela será uma das que farão parte do novo trabalho de Adolar Marin (só com parcerias nossas), volto a tratar do tema: em certa ocasião, fui tomado por um desejo muito grande de compor, mas, quando olhava pra folha em branco, nada vinha. Atualmente, costumo compor no computador, mas vez em quando ainda exercito o ato de escrever em papel. E, confesso, a folha em branco é um desafio pra qualquer compositor (ou escritor). Mas voltemos a esse dia. De repente, escrevi na famigerada folha "Do nada também se cria". Daí pra diante, a caneta praticamente se moveu sozinha e a letra se autoescreveu. Enviei o resultado a Adolar, e ele me devolveu uma belíssima canção, que batizamos de, obviamente, Criação. Vejamos sua interpretação neste precioso vídeo:

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Filho da preta! – na boca dos leitores (6) – por Escobar Franelas


Cada qual divulga seu trabalho (parafraseando o saudoso Zé Rodrix) como pode, quer ou consegue. Respeitando essa máxima, e vendo frustradas as expectativas de que meu livro ganhasse alguma crítica nos chamados grandes meios de comunicação, não me dei por vencido e comecei a publicar em meu blogue comentários daqueles que são os mais importantes pra quem escreve: os leitores. Esses comentários foram publicados em cinco edições (leia aqui). O engraçado é que meu filho já ganhou uma bela resenha – que hoje completa um ano de publicação! –, mas eu só vim a saber dela há poucos dias. Então, usando desse marketing das efemérides, aproveito a data pra divulgá-la aqui. Ah, em tempo: agradeço a Rosana Banharoli e Rosinha Morais pelo toque sobre a resenha. A ela, pois!